Em 5 anos, Brasil perde 23,6 mil leitos de internação no SUS. Mais de três mil deles foram em MG.

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Quase 24 mil leitos de internação foram desativados na rede pública de saúde desde dezembro de 2010. Naquele mês, o Brasil tinha 335,5 mil deles para uso exclusivo do SUS (Sistema Único de Saúde). Em dezembro de 2015, o número baixou para 312 mil, ou seja, uma queda de 13 leitos por dia. As informações foram apuradas pelo CFM (Conselho Federal de Medicina) do CNES (Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde), do Ministério da Saúde.

De acordo com o relatório, das especialidades mais afetadas no período, em nível nacional, constam psiquiatria, pediatria cirúrgica, obstetrícia e cirurgia geral. Já os leitos destinados à ortopedia e traumatologia foram os únicos que sofreram acréscimo superior a mil leitos.

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O presidente do CFM, Carlos Vital, diz que a falta de leitos vivida diariamente por médicos e pacientes nos hospitais brasileiros provoca atrasos no diagnóstico e no início do tratamento, aumentando a taxa de mortalidade.

— A insuficiência de leitos para internação ou realização de cirurgias é um dos fatores para o aumento do tempo de permanência nas emergências. São doentes que acabam ‘internados’ nas emergências à espera do devido encaminhamento para um leito adequado, correndo riscos de contrair infecções.

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Em números absolutos, os Estados das regiões Sudeste e Nordeste foram os que mais sofreram redução no período. Só no Rio de Janeiro, por exemplo, pouco mais de 7.000 leitos foram desativados desde 2010. Na sequência, aparecem Minas Gerais (-3.241 leitos) e São Paulo (-2.908). No Nordeste, a Bahia sofreu o maior corte (-2.126). Entre as capitais, foram os fluminenses os que mais perderam leitos na rede pública (-2.503), seguidos pelos fortalezenses (-854) e brasilienses (-807).
Na outra ponta, apenas oito Estados apresentaram números positivos no cálculo final de leitos SUS ativados e desativados nos últimos cinco anos: Rio Grande do Sul (806), Mato Grosso (397), Rondônia (336), Santa Catarina (121), Espírito Santo (115), Amapá (87), Mato Grosso do Sul (56) e Tocantins (15). Nas capitais, 12 delas conseguiram elevar a taxa de leitos, o que sugere que o grande impacto de queda tenha recaído sobre as demais cidades metropolitanas ou interioranas dos Estados.

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A cena que se transformou em símbolo doa atual estado da Saúde brasileira: um maqueiro de um hospital na Bahia acalenta a paciente idosa que chora de dor por não ter tratamento e onde descansar dignamente

O primeiro secretário do CFM, Hermann Tiesenhausen, afirma que “na realidade atual, só resta ao usuário do SUS rezar para não adoecer e não precisar de internação hospitalar”.

— Sufocados com o congelamento da tabela SUS, hospitais filantrópicos estão fechando leitos ou cerrando as portas. Governos e municípios também não estão conseguindo manter suas estruturas hospitalares, que estão cada dia mais sucateadas. Mas, como a doença não avisa, as filas de espera não param de crescer e o que vemos são doentes fragilizados, se acumulando em cadeiras e macas improvisadas nos corredores dos prontos-socorros.

Abaixo da média mundial

Embora a OMS (Organização Mundial de Saúde) e a Opas (Organização Pan-Americana da Saúde) não recomendem ou estabeleçam taxas ideais de leitos por habitante, é possível observar que, em relação a outros países com sistemas universais de saúde, o Brasil aparece com um dos piores indicadores.

De acordo com o relatório de Estatísticas de Saúde Mundiais da OMS de 2014, o Brasil possuía 2,3 leitos hospitalares (públicos e privados) para cada grupo de 1.000 habitantes no período de 2006 a 2012. A taxa é equivalente à média das Américas, mas inferior à média mundial (2,7) ou as taxas apuradas, por exemplo, na Argentina (4,7), Espanha (3,1) ou França (6,4).