Cerca de 17 mil civis fugiram de Faluja, diz ONG Iraquiana

Escalada de violência na cidade aumentou número de deslocados.
Forças iraquianas realizam operação para recuperar controle de Faluja

Cerca de 17 mil civis fugiram da cidade de Faluja e seus arredores como consequência dos combates entre o Exército do Iraque e o grupo terrorista Estado Islâmica (EI), informou nesta quinta-feira (9) o Crescente Vermelho iraquiano.

Escalada de violência na cidade aumentou número de deslocados (Foto: AHMAD MOUSA/AFP)
        Escalada de violência na cidade aumentou número de deslocados (Foto: AHMAD MOUSA/AFP)

A organização humanitária explicou, em comunicado, que o notável aumento do número de deslocados aconteceu em paralelo à escalada de violência na cidade, sobre a qual as forças governamentais lançaram uma ofensiva em 23 de maio.

O Crescente Vermelho destacou que até agora forneceu alimentos e água a mais de 9 mil civis deslocados e prestou diferentes tipos de serviços de saúde para mais 5 mil pessoas fugas de Faluja.

Nesse sentido, nos últimos dias foram enviadas desde Bagdá duas caravanas de caminhões com novas ajudas para cobrir as necessidades dos refugiados nos acampamentos de Ameriya al Faluja e Al Habaniya, próximas a Faluja.

O Crescente Vermelho também presta atendimento médico e psicológico, assim como ajuda na evacuação de famílias das zonas em conflitos.

As principais organizações humanitárias advertiram ontem desde Genebra que lutam contra o relógio para fazer chegar ajuda urgente aos foragidos de Faluja, uma das grandes cidades iraquianas controlada pelo EI e onde permanecem cerca de 50 mil civis.

Um dos deslocados, que no comunicado é identificado como Jassim Mohammed, disse que Faluja carece da maioria dos serviços médicos e que é quase impossível conseguir remédios.

“Não tivemos mais alternativa do que fugir e me refugiar em acampamentos de amparo, já que aqui o Crescente Vermelho Iraquiano nos ajuda com atendimento de saúde, alimentos e água”, explicou.

Segundo o presidente do Crescente Vermelho Iraquiano, Yasser Ahmed Abbas, sua organização se esforça para satisfazer as necessidades de todos os deslocados, já que “está presente em primeira linha em Faluja e em outras zonas do Iraque que enfrentam enormes desafios”.

A organização acrescenta que o Ministério iraquiano de Migração e Expatriados abriu sete acampamentos de amparada em Ameriya ao Faluja, em colaboração com setores locais e organizações internacionais.

O EI resiste uma ofensiva lançada há duas semanas pelas forças governamentais iraquianos com o apoio dos Estados Unidos.

ONU diz que 90 mil civis podem estar presos em Falluja, no Iraque

Cidade próxima de Bagdá foi tomada pelo grupo Estado Islâmico.
Cidade não recebe suprimentos há seis meses.

A Organização das Nações Unidas (ONU) revisou significativamente para cima nesta quarta-feira (8) o número de civis que acredita estarem retidos na cidade iraquiana de Falluja, um bastião do Estado Islâmico próximo deBagdá. A estimativa anterior de 50 mil pessoas subiu para 90 mil.

Em uma entrevista à Reuters por telefone de Bagdá, a coordenadora humanitária da ONU para o Iraque, Lise Grande, alertou que a população civil pode estar submetida a uma situação “angustiante” na localidade sitiada 50 quilômetros a oeste da capital Bagdá.

O Exército iraquiano iniciou uma ofensiva para expulsar os insurgentes de Falluja em 23 de maio, mas na prática a cidade está sob estado de sítio, e sem receber suprimentos, há cerca de seis meses.

“Subestimamos quantos civis estão em Falluja”, reconheceu Lise. “As pessoas que estão saindo estão nos dando uma impressão forte de que podemos estar falando talvez em 80 a 90 mil civis lá dentro.”

Mais de 20 mil pessoas conseguiram escapar de Falluja em condições extremamente difíceis, caminhando durante dias e enfrentando disparos do Estado Islâmico para chegar a áreas comandadas pelo governo, disse ela.

“Um grande número delas infelizmente não conseguiu sair. Sabemos que mais de 10 pessoas se afogaram tentando cruzar o rio”, afirmou, relatando também casos de famílias que perderam os filhos durante a fuga.

Foto tirada nesta quinta (12) e divulgada na sexta (13) mostra sunitas iraquianos que fogem de militantes Estado Islâmico na província de Anbar recebendo suprimentos de ajuda no acampamento Habbaniyah entre as cidades de Fallujah e Ramadi (Foto: Alaa Al- Marjani/Reuters)
Foto mostra sunitas iraquianos que fogem de militantes Estado Islâmico na província de Anbar recebendo suprimentos de ajuda no acampamento Habbaniyah entre as cidades de Fallujah e Ramadi (Foto: Alaa Al- Marjani/Reuters)

Estado Islâmico: conheça o grupo, seus objetivos e suas estratégias

Decapitações e outras formas de terror tornaram organização conhecida.
Radicais islâmicos controlam território entre Síria e Iraque.

Jihadistas do Estado Islâmico exibem suas armas e bandeiras do grupo em comboio em uma estrada de Raqqa, na Síria, em maio de 2015 (Foto: Militant website via AP)
Jihadistas do Estado Islâmico exibem suas armas e bandeiras do grupo em comboio em uma estrada de Raqqa, na Síria, em maio de 2015 (Foto: Militant website via AP)

O que é?
O Estado Islâmico (EI), também conhecido como Daesh ou ISIS, é um grupo radical sunita (um dos ramos do islamismo) criado a partir do braço iraquiano da Al-Qaeda, a conhecida rede responsável pelos ataques de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos.

Com maior capacidade de recrutamento, mais estrutura e com um território conquistado entre o Iraque e a Síria, o EI tem atraído milhares de jovens do mundo todo – segundo o Centro de Estudos do Radicalismo, mais de 20 mil estrangeiros de 50 países se juntaram a grupos sunitas radicais em 2014 – entre eles, principalmente, o Estado Islâmico.

O EI segue uma leitura radical das escrituras islâmicas e tem uma visão sectária antixiita.A sharia, lei islâmica, é seguida de forma rígida e práticas como a decapitação de inimigos e a pena de morte a homossexuais são amplamente usadas.

Quem é seu líder?

Abu Bakr Al-Baghdadi, autodenominado califa do Estado Islâmico, aparece em vídeo publicado pelos jihadistas (Foto: AFP/Al Furqan Media)
Abu Bakr Al-Baghdadi, autodenominado califa do Estado Islâmico, aparece em vídeo publicado pelos jihadistas (Foto: AFP/Al Furqan Media)

O EI é regido pelo autoproclamado califa Abu Bakr al-Bagdadi, dois vices e alguns conselheiros, que auxiliam com questões de diferenças religiosas, execuções e assuntos políticos. Em abril, o jornal “The Guardian” noticiou que al-Bagdadi ficou gravemente ferido após um ataque aéreo no Iraque realizado pela coalizão internacional liderada pelos Estados Unidos, mas o próprio EI ainda não divulgou nada a respeito.

Onde está?
O grupo controla áreas do Iraque e da Síria e, entre as conquistas mais recentes estão a cidade deRamadi, capital da província iraquiana de Al-Anbar, e a cidade histórica síria de Palmira.

estado islâmico mapa - V02 (Foto: Arte/G1)

Estratégias
O Estado Islâmico se originou em meio a práticas terroristas da rede Al-Qaeda, mas desenvolveu seu próprio modo de agir. Entre as diferenças que causaram a separação dos dois grupos estão a apropriação de territórios e a formação de um califado.

O EI também usa a violência generalizada contra muçulmanos xiitas – além de não islâmicos, que eles chamam de “infiéis”. O Observatório Sírio dos Direitos Humanos estima que mais de 2.600 pessoas foram executadas pelo EI desde a proclamação do seu califado.

Dentro do califado, as regras de vida são rígidas e baseadas na sharia – lei islâmica. Outra inovação em relação à Al-Qaeda é o pagamento para os combatentes. Segundo uma reportagem da revista “The Economist”, cada guerrilheiro que luta em nome do grupo recebe um salário de US$ 400 mensais, valor bem superior ao que grupos jihadistas iraquianos ou que o Exército sírio paga a seus combatentes. Além de uma contribuição mensal, os militantes recebem dinheiro ao se casar, para ajudá-los a começar uma família.

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O uso das ferramentas de mídia ocidentais – como a divulgação de vídeos em canais do YouTube e Twitter – é uma das apropriações do EI. As gravações são feitas com equipamento profissional e mudam de acordo com o público-alvo. Vídeos de decapitações de ocidentais  mostram os reféns com roupas laranjas – que lembram os detentos da prisão americana de Guantánamo – e face serena.

Financiamento
A principal fonte de recursos do EI vem do petróleo. O grupo se apropriou de campos de produção e vende, segundo a organização Council on Foreign Relations (CFR), 48 mil barris por dia (44 mil dos campos sírios e 4 mil dos iraquianos). A venda do combustível rende US$ 1 a 3 milhões por dia. Ainda de acordo com o CFR, o regime do ditador Bashar al-Assad, os turcos e os curdos iraquianos – todos conhecidos inimigos do EI – são alguns dos clientes.

Outras fontes de renda são a pilhagem, extorsão e cobrança de impostos nas regiões em que controlam.

Relações com a Al-Qaeda
Desde que cortaram relações, o EI e a Al-Qaeda viraram rivais.Na Síria, eles competem por militantes e disputam poder. A Al-Qaeda foca seu discurso no ataque aos americanos e a potências ocidentais – que consideram responsáveis pelo caos no Oriente Médio.

Em abril de 2013, al-Bagdadi anunciou uma possível fusão do Estado Islâmico e da Frente Al-Nosra, um grupo jihadista ligado à Al-Qaeda na Síria, se fundiriam para se converter no Estado Islâmico do Iraque e Levante. Mas a Al-Nosra negou-se a se submeter ao califa do EI e os dois grupos voltaram a agir separadamente.

Coalizão internacional
Em setembro de 2014, o presidente americano, Barack Obama, anunciou a formação de uma coalizão de aproximadamente 60 países na luta contra o EI. Até março de 2015, o grupo já havia realizado 4 mil ataques aéreos, a maioria com atuação das forças americanas. Um dos países envolvidos é a Jordânia, cujo governo se declarou determinado a erradicar o EI depois que um piloto de sua Força Aérea, que havia sido capturado pelos extremistas, foi queimado vivo dentro de uma jaula.

Em escala local, a escassez de equipes militares pelas baixas em combate, somada à dificuldade para novos recrutamentos, fazem com que o exército sírio e suas milícias escolham suas batalhas e evitem brigar por localidades de maioria sunita ou por aquelas nas quais a população local também não combate o EI.

Já o primeiro-ministro iraquiano, Haider al-Abadi, apresentou um plano que prevê “acelerar o apoio aos combatentes tribais da região, para que possam lutar contra o EI ao lado das forças iraquianas” e “garantir que todas as forças que participam da libertação da província operem sob o comando e o controle do premiê”.

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